domingo, 9 de janeiro de 2011

O POÇO

O POÇO




O poço é o limite. Ultimato humano. Depois: o que não é luz é treva. Não é punição. Não há sofrimento. O homem se integra ou se desfaz. A água do poço purifica o espírito. As imagens dos corpos que ainda projetam tombam após os passos finais até o redemoinho. O corpo já não existe quando o redemoinho envolve o espírito. Todos têm medo da escuridão. Dela não há caminho de volta. São insistentes os gritos para aqueles que não conhecerão a luz. Houve já quem aceitasse em silêncio. Por algum motivo. A vida é o inesperado. Os homens não sabem.






Não vou morrer de vergonha

se de fora faço parte.

Terá arte nas artimanhas

de um mundo em seu desastre.


E toscas riem as palavras,

as mesmas... Face ao encanto

não ousam a flauta tocante.

Eu choro sem minhas lágrimas!


A chuva varre o barranco,

vai revelar a ferida terra.

E a árvore não cai.


Sua raiz desconhece o pouso

do grito, o urubu faminto:

o que não morre nem sonha.


Assim escreveu Jeremias. Leu para a mãe e o irmão.

- Isso é poesia! Pra quê serve uma poesia? É melhor catar lixo!

Amassou sem pesar. Jogou no fogo prometendo jamais escrever outra poesia. Jurou para a mãe ser o melhor catador de lixo da cidade. Ele estava pronto. Nasceu pronto.




O VIAJANTE


Longe a mãe tentava avistar quem chegava. Aos poucos se revelou a figura de um homem. Ela enquanto conduzia o viajante até o poço esperava respostas nas palavras dele.

Jeremias irritou-se. Com certeza perguntava pela Diana. Não se cansava. Como uma pessoa pode não se conformar? Aceitar era um princípio dos que sobrevivem. Ela habituada a se sujeitar. Que viveu de concessões. Tomaria a água, sozinho. Estava cada vez mais certo da sua decisão.

O viajante caiu de joelhos diante do poço. Não suportava mais aquela carcaça envelhecida pelo sol e o lixo. Que idade teria nem mesmo o coitado sabia. Tinha chegado sua hora. Era o que ele repetia feliz. Seu nome estava na última lista. Juntou suas coisas e devolveu ao lixo. Não se despediu de ninguém. Foi para a fila do corredor da morte programada.

Exultante ao ouvir a euforia do velho pensou em seguir com o viajante que apresentava tanta sede. Aquele homem também não temia o redemoinho. A mãe serviu-lhe a água e se afastou triste. Antes de beber o homem se voltou para ela.

Não vai terminar a viagem?

Ele respirou fundo. Ansiava pela resposta da mãe.

Espero por minha filha!


Sabia e ela nem se virou para responder. Odiava sua mãe. Aquela mulher. Uma prostituta. Ele odiava sua beleza mesmo assim cada vez mais triste.

O homem insistiu. Estava encantado com a beleza dela com certeza. Se ele tinha tanta sede por que não bebia de uma vez?

Há quanto tempo estão aqui?

Ela então se virou. Ele também queria essa resposta.

Aqui o tempo não passa!



(Guerá Fernandes apresentando O melhor catador de lixo da cidade do livro O Poço na noite de lançamento na editora Multifoco)

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