O POÇO
O poço é o limite. Ultimato humano. Depois: o que não é luz é treva. Não é punição. Não há sofrimento. O homem se integra ou se desfaz. A água do poço purifica o espírito. As imagens dos corpos que ainda projetam tombam após os passos finais até o redemoinho. O corpo já não existe quando o redemoinho envolve o espírito. Todos têm medo da escuridão. Dela não há caminho de volta. São insistentes os gritos para aqueles que não conhecerão a luz. Houve já quem aceitasse em silêncio. Por algum motivo. A vida é o inesperado. Os homens não sabem.
‘Não vou morrer de vergonha
se de fora faço parte.
Terá arte nas artimanhas
de um mundo em seu desastre.
E toscas riem as palavras,
as mesmas... Face ao encanto
não ousam a flauta tocante.
Eu choro sem minhas lágrimas!
A chuva varre o barranco,
vai revelar a ferida terra.
E a árvore não cai.
Sua raiz desconhece o pouso
do grito, o urubu faminto:
o que não morre nem sonha.’
Assim escreveu Jeremias. Leu para a mãe e o irmão.
- Isso é poesia! Pra quê serve uma poesia? É melhor catar lixo!
Amassou sem pesar. Jogou no fogo prometendo jamais escrever outra poesia. Jurou para a mãe ser o melhor catador de lixo da cidade. Ele estava pronto. Nasceu pronto.
O VIAJANTE
Longe a mãe tentava avistar quem chegava. Aos poucos se revelou a figura de um homem. Ela enquanto conduzia o viajante até o poço esperava respostas nas palavras dele.
Jeremias irritou-se. Com certeza perguntava pela Diana. Não se cansava. Como uma pessoa pode não se conformar? Aceitar era um princípio dos que sobrevivem. Ela habituada a se sujeitar. Que viveu de concessões. Tomaria a água, sozinho. Estava cada vez mais certo da sua decisão.
O viajante caiu de joelhos diante do poço. Não suportava mais aquela carcaça envelhecida pelo sol e o lixo. Que idade teria nem mesmo o coitado sabia. Tinha chegado sua hora. Era o que ele repetia feliz. Seu nome estava na última lista. Juntou suas coisas e devolveu ao lixo. Não se despediu de ninguém. Foi para a fila do corredor da morte programada.
Exultante ao ouvir a euforia do velho pensou em seguir com o viajante que apresentava tanta sede. Aquele homem também não temia o redemoinho. A mãe serviu-lhe a água e se afastou triste. Antes de beber o homem se voltou para ela.
– Não vai terminar a viagem?
Ele respirou fundo. Ansiava pela resposta da mãe.
– Espero por minha filha!
Sabia e ela nem se virou para responder. Odiava sua mãe. Aquela mulher. Uma prostituta. Ele odiava sua beleza mesmo assim cada vez mais triste.
O homem insistiu. Estava encantado com a beleza dela com certeza. Se ele tinha tanta sede por que não bebia de uma vez?
– Há quanto tempo estão aqui?
Ela então se virou. Ele também queria essa resposta.
– Aqui o tempo não passa!
(Guerá Fernandes apresentando O melhor catador de lixo da cidade do livro O Poço na noite de lançamento na editora Multifoco)
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