sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

OS LADRÕES DE QUEM ROUBEI VERSOS


OS LADRÕES DE QUEM ROUBEI VERSOS

O poema é quando começamos a entender o silêncio. Demanda tempo de olhar sem palavras. Essa discussão de inspiração, se ela existe ou não, quantificar em relação à transpiração. Pode ter sido mais uma evolução do próprio fazer poético. Eu particularmente vivo da minha inspiração, e tantas vezes sem ela. E é por sentir esse instante de sopro que sou poeta. E não é fácil nos dias atuais. Na verdade nunca foi. Poderia dizer que no Brasil principalmente. Provavelmente em lugar nenhum. 


Hoje eu leio muito mais poesia. Descobri a pouco, “Folhas de Relva” de Walt Whitman. E fiquei me perguntando ‘como eu não tinha lido este autor ainda? E assustado por não antes... Mas já o tinha visto em outros poetas. Encontrei íntimos versos de Pessoa a Drummond. Salvo em Ana C. com “os ladrões de quem roubei versos de amor com que te cerco”. Então era ali a fonte, o princípio de tudo. Ao ser tomado pela leitura e sabendo como se fosse também a única tal a empreitada. 


Como estes poemas passaram ao longo de mim em toda minha formação?’. São os encontros e desencontros literários da vida. Há poetas maravilhosos e poemas de excelência a serem descobertos sempre. Também posso dizer de um interesse meu crescente por Filosofia. Gilles Deleuze tem sido uma das maiores descobertas da minha vida. Sou fascinado por Deleuze.

Muitas vezes também sinto o grande deserto. Deleuze em alguma parte fala desse homem que não se sente de lugar nenhum e ao imaginar isso doeu sim. Inquietação e destruição! Só falta a cachaça pro fígado dizer te amo! quanto a poesia criar dom... não sei... gosto das palavras e aqui e ali sinto versos vagalumeando. 


Tanta coisa veio agora pra escrever, mas preciso confessar uma coisa: faz muito tempo não falo com alguém que me pareça realmente interessante! Tenho visto muito charme, muita grife, muito isso ou aquilo supostamente, cartão de crédito com seus carros e viagens e projetos e que ainda vai estourar em alguma coisa. Por isso fiquei tão fascinado com filme Na Natureza Selvagem (Into the Wild) dirigido por Sean Penn, baseado no livro homônimo, do jornalista Jon Krakauer, que conta a história verídica de Christopher McCandless, um jovem recém-formado que se aventura pelos Estados Unidos da América até chegar ao inóspito Alasca



Deleuze, definitivamente sou antes e depois de Deleuze. Eu já era e já tinha uma alma deleuzeana antes de conhecer Deleuze. E conheço pouco na sua literatura, mas quando assisti ao documentário "O abecedário de Deleuze" em entrevista a Claire Parnet eu me reconheci. É como ele fala tem gente que diz bom dia e você entende bom dia. Tem gente que diz boa noite e você pergunta quem morreu. 



Gostei de saber o filho que a casa torna. Sempre. Alguns anos atrás eu vi uma entrevista linda com uma atriz francesa Fanny Ardant, e ela falou coisas que deslocam. Eu gosto muito de distanciamento, deslocamento e desconstrução. Então ao ser perguntada sobre seus amigos, ela respondeu: não tenho amigos, pausa não impactante, sorrindo completou, mas sempre me dei muito bem com desconhecidos!


As palavras vêm ao encontro de um diálogo de eus nossos. A voz cala esse silêncio. Extrema sinceridade deve se exigir consigo mesmo. O cinismo é insuportável sobre qualquer aspecto. Falando de família me fez lembrar de um autor russo que Deleuze cita Mandelstan:



"Eu repito: a minha memória não é amor, mas hostilidade. Ela trabalha não para reproduzir, mas para afastar o passado. Para um intelectual de origem medíocre, a memória é inútil. Basta-lhe falar dos livros que leu e sua biografia está feita. Dentre as gerações felizes, onde a epopeia fala através de hexâmetros e crônicas, para mim, parece um sinal de pasmaceira. Entre mim e o século, há um abismo, um fosso repleto de tempo fremente. O que queria dizer a minha família? Eu não sei. Era gaga de nascença e, no entanto, tinha algo a dizer. Sobre mim e muitos dos meus contemporâneos, pesa a gagueira de nascimento. Aprendemos não a falar, mas a balbuciar. Foi só quando demos ouvidos ao barulho crescente do século e fomos embranquecidos pela espuma de sua crista que adquirimos uma linguagem". Li tantas vezes esse texto e ainda agora ele se descortina em assombros. Agradeço ao universo e que ele seja sempre horizonte, sonho e sorte aqui aí ou em Bogotá. 


Retornei tal escreveu Cabral ao sair de um poema como quem lava as mãos. Aconteceu um novo diálogo dentro de mim. O fato é que não tenho tido pressa, ansiedade e entendido imediatamente as vias tortas e que a gente não precisa fazer a hora ah que peso a hora sabe ser certa na sua hora. Matei o Geraldo Vandré e espero a coisa acontecer. Dito isso não como receita! 


É bom saber as impressões. Eu falo desse nosso encontro de vozes tão bonitas. Não nos conhecemos, mas espero por você como quem sabe que logo você vai chegar. Um farol. No sentido mais próximo real da coisa. Ser tocado de delicadezas no nosso olhar de dentro. Aquele que carrega todos os tempos e responde a todos os homens. O silêncio primeiro que possa ter existido entre duas pessoas, tal silêncio que às vezes fizesse entender quem elas eram. Depois disso salve Shakespeare: somos apenas máscaras. 


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