RIO MARÍTIMO
A arte líquida
reflete no vazio
o mar dentro do rio
se espraiando com sono
num ritmo incômodo
o vômito repete
em si mesmado
e sem dono
O primitivo
é o que está vivo
e remanesce marítimo
em remanso abandono
o nascer diário
e o ter sobrevivido
verde e úmido esgoto
de lixo e escombro
O corpo e a sede
lambendo-se desse lodo
engolido por um olho a olho
e se transformando
neste morrer desesperado
por ter sido leito
a leito e o rio-rio
só se é navegando
Guarda essa chuva pra depois
não quero um pingo do futuro
se isso me afasta de nós dois
basta agora você no escuro
eu nos seus braços no compasso
eu no seu abraço eu me curo
vento de verde vida e espaço
eu faço promessas, eu juro
me viro inteiro, vou no encalço
eis aqui eu no que sou e desfaço
se antes já foi do não vivido
não chora meu peito adormecido
o ontem é poeira, e amanhã brisa
deixo o tempo que vem perdido
a queda eterna se improvisa
mas se você for não me avisa
ATA E DESATA
A gente ata e desata
depois cascata
cai de recantos
e abre ribanceiras de tantos
no revés dos biombos
eu não me escondo
sou água sou condor
voo com pássaros nos ombros
por espaços deságuo
em terras recantos
de florestas de banjos
revoada de anjos rebanham
essas palavras que me
foi-ce desentender
outras águas quero ser
aos rombos de novo aos e s c o m b r o s
a gente se farta
dos mesmos vazios
mas ainda rios nós somos
o mar dos nossos navios
são corpos no cio de oceanos
que sonhamos e é nuvem
que não passa você chora
e disfarça você me mata de rir
você não está nem aí
pro nosso fim assim
de desesperos e imprevistos
me distribui nas feiras
do dito pelo não-dito
diz parta e rimos coisa gasta
esta de ser ou não ser a incerteza
de onde vamos a gente cai l e v a n t a m o s
depois cascata
cai de recantos
e abre ribanceiras de tantos
no revés dos biombos
eu não me escondo
sou água sou condor
voo com pássaros nos ombros
por espaços deságuo
em terras recantos
de florestas de banjos
revoada de anjos rebanham
essas palavras que me
foi-ce desentender
outras águas quero ser
aos rombos de novo aos e s c o m b r o s
a gente se farta
dos mesmos vazios
mas ainda rios nós somos
o mar dos nossos navios
são corpos no cio de oceanos
que sonhamos e é nuvem
que não passa você chora
e disfarça você me mata de rir
você não está nem aí
pro nosso fim assim
de desesperos e imprevistos
me distribui nas feiras
do dito pelo não-dito
diz parta e rimos coisa gasta
esta de ser ou não ser a incerteza
de onde vamos a gente cai l e v a n t a m o s
O CONVALESCENTE
É na sua dor mais profunda
que o homem se aproxima de Deus.
De joelhos o pobre diabo se estuma
sem vestes, sem olhos, sem seus.
O homem muda muito pouco.
Às vezes uma vida inteira
ruminante passeia o mouco
com eira e beira até a caveira.
Ser ou não ser: promessa e jura.
A morte além de um sonho
pede perdão, espera a cura.
O homem alcunha-se atônito!
E a pedra no caminho fura
com seu meio, seu urro e vômito.
FILETE
Vazio frio do rio. Frio de dentro
do corpo do rio. Vazio tanto maior
de noite. Ritmo falso, remanso...
Água corre seu canto
estreito. O peito da gente no rio
sem leito. Rio sem jeito amiu
dando-se. Fio insistindo filete,
nadinha no se deixe.
Peixe na rede do milagre! Banque
teie-se e logo será tarde. Ri por todos
nós a incerteza. Riso que sabe a morte
descortinando a sorte.
Vou sem norte! Quem sabe doce
será o corte? O fio ainda dessas
palavras: as muitas águas
A quem importe!










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