terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A FARSA DA VALSA


A FARSA DA VALSA

 

Arrebato meus personagens

ao mesmo tempo com uma fragilidade.

Sem saber quem de nós é vítima

Eu me seduzo, envolvo, lúbrico.

 

E me reduzo, louco, lúdico.

Assim jogo meu jogo de perigos,

meduzo meus sentimentos,

desfilo minhas fantasias, minha nudez...

 

Chego bem perto deste meu menino,

e quando ele sorri com meu afeto,

eu  o deixo sozinho, com medo do escuro,

 

sem ninguém por perto:

parte de mim que nino,

e em seguida, assassino.


ESPELHO MÁGICO

 

 Eu sou o bobo da corte

sem corte eu sou o bobo

da corte sem bobo eu sou

o bobo da corte sou eu

a corte do bobo sem eu

sou a corte do bobo eu

 

mas o rei também sou eu.


CANIBALISMO ANÍMICO


Maior fantasma atormentou Hamlet.

Ele que nunca riu,

não salvou Ofélia das águas da loucura,

nem a si mesmo livrou-se da terrível procura.

 

Hamlet diante dele lambendo

os ossos da sua tristeza,

atravessando os olhos com os dedos,

buscando os miolos, seus sonhos intocáveis.

 

O que de nós se perpetuará?

Reverberando-se... Ah! Hamlet,

posso eu devorar-te, ter-te entre os dentes,

 

salivá-lo de delícias terríveis.

E salvá-lo pela língua antes de morrer,

de ser e não ser Hamlet.

 

 

 O ATOR

 

 O ator caminha exausto,

seu corpo treme amador,

o que é dele, ali partido,

é pele de outro, sem cor.

 

O ator se entrega incauto

entre escravo e senhor,

despe dos olhos seu rito,

escuta o sopro da dor...

 

E então gira, chora do alto,

lança no espaço do grito

mais uma queda do salto.

 

O ator morre só no palco

sem a máscara do riso

no gesto final do assalto.

 

 ÓPERA DOS VIVOS

 

O nosso palhaço

nasceu romântico,

nosso teatro,

lítero-semântico,

 

fogo-fátuo,

refém de autos,

repente e palco

rompem o asfalto.

 

Ave às vésperas

dos seus arroubos

de cega direção,

 

de ritmos enviesados

por seres enfezados

age o bufão!!!!!!!!!!!

 


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

OS HOMENS SE DESPEDEM DO MAR

OS HOMENS SE DESPEDEM DO MAR

Os homens se despendem do mar com suas roupas coloridas. Despedida é mesmo triste, mas sabido é que viver é um trágico aprendizado da morte. Sim, trágico, pois mal aprendemos. Nossos rituais, os mais bonitos ou os mais bárbaros, apenas se despedem da vida com seu anteceder que dói. Cotidiano e humano. Nosso oceano fotografado com nossas crianças felizes. O pedaço negro do filme revela que não somos de verdade. Mentimos nossa descarada felicidade. Interrompemos alguma coisa para dizer que somos sim felizes, que a vida apesar de tudo valeu a pena. Que luz é essa em clarão que explode pra nos justificar ainda mais? A natureza alimenta nossa vaidade. A natureza se vinga. Aqui e ali o seu deserto se alonga além dessa onda em camadas transparecendo e umedecendo a areia da praia. Não sei se esse balão sobe ou se é o cordão umbilical do mundo com seu acorde. De longe e mal focado apenas uma fotografia em que parece que os homens se despedem do mar com suas roupas coloridas.


 ACÁCIAS IMAGINÁRIAS



Eu deveria saber mais sobre flores
que jamais reconheci pelo nome,
embora seja um dos seus cantores.


Eu deveria descortinar o longe
além de recíprocos dissabores.
Triste é outono de quem tão só se esconde.


Sem rumo o homem levanta rumores:
de onde vem, como se veste, o que come...
Quisera eu meus versos soassem tambores!


Sem hora por arrogante não me tome.
Também não me apresentei aos senhores:
fui rei, ladrão, e em tudo sou eu fome.


Ocidental de trocas e favores...
Subi a montanha e o grito não responde.





 VERMELHIDÕES CREPUSCULARES





Eu represento minha poesia
todos os momentos
como quem lava a escadaria de uma Matriz
para quem sabe um dia se confessar


Ah, por estas águas rio...
Sei o viés das máscaras:
chegar, olhar, dizer o que ninguém mais diz
e ainda assim saber que foi amor


Se quiser adivinho seu sorriso
a lágrima que todos temos
a certeza dos sete palmos, o medo de ser feliz


Deixa chegar quem chegar
se pelo mar mais olhos há
vermelhidões crepusculares, a noite por um triz



O TERCEIRO SINAL





Diante dos olhos de Deus as cortinas do tempo se abrem, enquanto negras serpentes
hipnotizam trombetas, que seus anjos
não tocaram para os inocentes.


Torpe espelho! No camarim dos sonhos
enquanto espera o terceiro sinal
a atriz chora, e pronta pra entrar em cena
enfia sem dor no seu ventre um punhal.


No chão do teatro, debaixo de saias,
Marilyn, um travesti barroco,
um deus-menino, tão nu, empinando
palavras-asas de um outro anjo, louco.


Ele se masturba e se desculpa e
dança driblando a contagem do tempo...
Como ousa parecer tão jovem este
com um olho disfarçado de vento?


De certo pensa ele que estará impune.
Mas eis que o mais humano de um desejo
salta entre os dois e então é tensa a luta:
destronados, doentes do mesmo medo.


As bailarinas se beijam no palco
da controvérsia teatral. O oráculo
na lírica luxúria.... Na platéia
homens cegos dormem nesse espetáculo.





(Pinturas de Mark Rothko, 1903 - 1970)