domingo, 4 de dezembro de 2016

DE INCANDESCÊNCIAS E ELÉTRICAS

A poesia não está morta! A poética se sacode como pode, pois saco vazio boia no rio. A arte aos duros abates. Nocautes ditos marginais. Anarquistas! Sim, e daí? Não são poetas. E desconfio tanto mais dos letristas. Eu que tanto aprendi com estes. Salvo em Deleuze dizendo que só se consegue ser amigo de quem desconfiamos. E eu desconfio terrivelmente dos meus amigos! Debochava. Pois desconfio terrivelmente da poesia dos letristas. Quando a poesia é um caminhar em silêncio, e onde somos tocados pelo puro instante.


Encontrei Ferreira Gullar esperando o sinal abrir entre a Duvivier e a Nossa Senhora de Copacabana. Confesso não sei gostar quando eu gosto tanto. E a poucos metros não tinha tempo para conflitos e egos. Era uma manhã vazia de mim. De um eu oco. Até que eu toquei nosso poeta. Foi rápido. Ele sorriu inesperado com minhas palavras de afeto. O sinal abriu e ele se foi. Eu subi a sua rua. Não queria mais encontro nenhum. Sentia os ossos de puros monumentos poéticos. O incandescente.

Estamos diante de estranhas e paranoicas linguagens estetizantes. Os poetas envelhecidos partiram para uma prosa poetizada e deixaram os meninos com suas guitarras escreverem seus versos de dimensão que vai do arpoador ao posto nove em Ipanema. Das elétricas estamos líricos no computador.

Nós: os terríveis! Muito barulho e pouca inspiração. E quem tem tempo para se inspirar? Pega logo o jornal de ontem, tesoura para recortar, cola para colar. 1, 2, 3 e vamos criar. E depois todo mundo aplaude todo mundo de pé!


Deve-se abrir um espaço para se entender o tamanho da importância do cancioneiro brasileiro. Que se destaquem as fantásticas contribuições para a língua e a poesia no Brasil. O que fica difícil de assistir é ao excesso de letras, em conteúdos que tratam da produção literária em relação aos textos propriamente poéticos.


Desligue o som um pouco desses ‘caras’, que são todos os mais demais, e sinta os ossos de puros monumentos poéticos. Não, não é nenhuma chacrinha. Nem requebrado nem leite derramado. Muito menos ornamentos distorcidos de um recanto escuro. Ou voz profetizante entre chacinas rimas e propinas.


Parece que atravessamos um deserto na corrida cultural! Mas se você veio da Bahia ou já foi de alguma turma de marola das dunas da Gal do posto 9 ao Arpoador ou se acha que conhece o Brasil porque atravessa os Arcos da Lapa então pode pensar altas cifras para o seu leite derramado!







Eu sempre penso nos ladrões de galinha!



















E a lírica mal dividida da nossa autocrítica não sabe se vaia ou se aplaude. Então fiquemos em silêncio por um instante! Sim! A poesia e suas incandescências! Esta noite não se improvisa: a poesia não está morta, é só você abrir a porta.





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