segunda-feira, 15 de agosto de 2011

MULHERES DE PALAVRAS



O PIO DO ARREPIO E O PLÁGIO
‘O pior plágio é o que se faz de si mesmo’
(Clarice Lispector)

Plágio que se faz de si mesmo,
angu com torresmo, o ermo
do esmo, o mesmo ‘mô’ do mesmo,
pausa do clímax no seu termo.
O toque, o retoque de mestre
do mestre, a palavra que abre
a chave da palavra Mestre:
saber no vácuo do milagre.
O construtor no movimento,
o artístico e o automático,
pedra calcinada do tático.
Despista nas pistas o invento
o poeta investigador:
instiga a tensão sem dor.



E depois ainda tem porta que fecha sozinha
até mesmo quando vento nenhum mais ali sopra.
A porta batendo seus tantos e mesmo outros cantos:
galo cantando na tarde, triste, entre fraco e forte.
Ora! Está pelejando com a morte de quem a vida
ainda arde. O beijo que se faz cada vez mais tarde.
Adélia do alto da sua sabedoria em silêncio
sentencia: Deus o tenha! Este não passa desta noite.
O olhar, a margem de um rio, o canto velho da rua,
a lua que ria, a vida que ia sem dia como qualquer
cidadezinha em que tudo vai mesmo é devagar.
Ou nem ia. Mas os sinos da igreja insistindo,
dobrando a nossa melancolia de existir ali
uma árvore com uma sombra que nos pertencia.
AOS PEDAÇOS

Os sinos da igreja anunciam que alguém partiu

desta para melhor. Adélia estava certa, o coitado
não passou da noite passada. Os desígnios latindo,
enquanto a indesejada da gente vem rindo.
Os cães nada sabem dos signos. E tanta coisa não
tem tempo mesmo. Num momento impreciso crianças
morrem sem que as roletas dos cassinos parem de girar
por um minuto de silêncio que seja. É a vida.
É. E ao mesmo tempo aos pedaços. As janelas que
se fecham aos olhos que passam seguindo o enterro
de um homem com todas as contas por pagar.
Vai-se um desejo a cada abraço no fim. Não peço.
Eu sou aquele que nasceu para aceitar que os filhos
e a viúva se voltem contra todos e venham cobrar.

ADÉLIA

Adélia veio falar comigo nos últimos dias. Adélia entrou na minha vida faz muito tempo. Foi amor à primeira visita. ‘Nem um verso em dezembro, eu que para isso nasci e vim ao mundo’. São estes os encontros perfeitos. Eu que só tive retalhos sei muito bem quando os atalhos caminham sempre para a estrada principal. ‘Fui buscar os chuchus e estou voltando agora, trinta anos depois’. Assim nossa intimidade descortinava madrugadas. Adélia nunca foi santa comigo, é bom que se saiba. Seus cânticos eram de carne e eu mesmo arrumava nossa cama e em pouco tempo eu já falava com ela as suas palavras e ela entendia. Falávamos juntos. Sabíamos de cor o que tínhamos que dizer. Adélia era mais velha, mas não a beata que pensavam corrompendo um jovem bem mais moço. Adélia transcendia... Vinha de estrelas. Ria seguindo estrada: atravessava a vidraça sem quebrar nada. E eu sempre tão imanente. Mesmo sem glória nenhuma e aos pedaços no chão. Foi Adélia quem me ensinou a fazer dos meus cacos, cacos para um vitral. Não se preocupe, Adélia me dizia, ninguém nunca vai mesmo nos ler por inteiro. Não quis entender, repeti palavra por palavra de tantas palavras de Adélia para Adélia como se eu mesmo fosse Adélia e não ela. Assim passamos noites como um trem-de-ferro que tinha então virado só sentimento. Nós somos sentimentos, Adélia dizia baixinho pra mim já quase dormindo de nós. Ela então esperou que eu dormisse tão completamente e em silêncio se levantou. Deixou algumas palavras. Na verdade não disse muito: ‘Nós precisamos de palavras novas’. E dentro da noite mais uma vez ela se foi. O afastamento não significou um rompimento, nós nos encontrávamos sempre que queríamos. Ou mesmo casualmente. Às vezes eu penso que a nossa história vem de histórias de outras vidas. Em sonhos ela me chamava de Jonathan. Jonathan. Jonathan e era como se fosse eu quem nunca foi. Por fim ela me revelou: ‘Jonathan é apenas um homem... A ópera não é bufa, é só um não-saber rasgado de clarões.’ E concluiu: ‘...E ninguém é condenado porque ama’. Os dias passaram de infinitos. Eu não soube o que dizer, eu que não era ela, minha Adélia, e também nunca fora Jonathan nem em outra encarnação. Ano passado escrevi uma poesia para ela, já fazia um tempo que a gente mal se falava. Ela disse que já não queria ouvir mais nada, que eu não tinha entendido nada, que tudo tinha sido uma piada. Adélia era uma mulher desalmada, depois de tudo que ela tinha me dito. Eu sempre soube que é preciso ter cuidado com essas mulheres que vivem de palavras. Mas eu não queria acreditar de todo. Havia em mim no fundo uma esperança de que ela me amasse sim. E todas aquelas noites? Não! Eu não menti pra você. Você é meu amigo, há de entender como Pessoa que eu mesmo era a princesa que dormia. Ela não me amava. Tinha sido tudo uma mentira e era eu quem tinha inventado tudo. Na verdade ela nem me conhecia. Que me importa, eu pensei, eu não devolvo nada, nada, nem uma palavra. Depois a poesia era bem um soneto, ela que sempre foi tão livre, que vivia me dizendo: ‘Daqui a pouco começam a fosforescer coisas no mato. A serva de Deus sai de sua cela à noite e caminha na estrada, passeia porque Deus quis passear e ela caminha’. Eu nunca desconfiei de nada. Que ela tivesse outros leitores, que eles se multiplicassem, e que de tanto chegassem à combustão. Eu não me importava, já disse. Acredite você ou não, eu dediquei a ela a minha oração: ‘Passeia porque Deus quis passear’, assim sendo ou mesmo que assim não fosse. Tivesse ela mais que leitores, tivesse ela, pois seria eu seu único cantor. Adélia eu pensei, minha para sempre. Trouxe ao peito por um momento de amor, dobrei e guardei aquele soneto. Os dias passam. Mesmo me afastando da terra, as formigas não param. Eu que aprendi que só existe onde eu estou. Que nada, as formigas existem às bordas e além e em toda parte elas partem. Eu que não me meto com formigas, elas que comigo ou sem migo migram: as operárias ápteras. Sentindo-me sozinho, noite dessas, abri a gaveta: cartões, velhos retratos... E entre papéis, lá estava num papel já amassado os versos que eu escrevi para minha musa, minha amada, minha Adélia, minha Minas feminina, meu oriente, mulher desalmada, minha estrela cadente, minha dor de dente, meu corte, meu rente, meu repente, meu de repente, minha terceira margem das profecias, meu oráculo, meu crepúsculo, minha Ave Maria, meu dia a revelia, minha primavera de flores do bem.
SONETO PARA ADÉLIA PRADO


De algum refinamento seremos todos escravos

Mesmo os mais rudes homens cheirando às pescarias
Arrogando orgulhosos os silêncios dos parvos
Em suas histórias de astutos ressaltam poesias:
- O lambari atravessou o ar feito um relâmpago!
Era noite dentro de treva e a luz a espera...
Se entre os fracos aviltamos a voz ao escândalo
Às vezes do mato respira o medo, nossa fera
Mesmo que a palavra não seja mesmo de luxo
E o pelejador ainda assim alimente o seu custo
Pra justificar o roubo aos deuses inumeráveis
- Eu vi a mãe d’água e jamais vou esquecer seu canto
Se eu pesco larvas, desconverso fantasmas, meu tanto...
Entre rãs sobressaltadas as musas são impecáveis!


Um comentário:

Analuka disse...

Uma postagem rica, densa e pulsante!!! As palavras fluem, vertem, correm, riem, choram, pulsam... as letras tremeluzem. Gostei das homenagens à Clarice e Adélia, mulheres amantes de palavras, de seivas, de sangue, de poesia!... Abraços alados, amigo.