domingo, 22 de novembro de 2009


Cor que escurece primeiro é verde

E como são muitos verdes na natureza dos galhos das folhas das árvores todas das matas e ainda outras ramagens de verdes e o capim da relva onde solitário o boi de tristes palavras ainda pasta...

Ai, que às vezes fica tão de noite que até o vento escurece com o verde!
Ora que amizade é essa coisa da peste mesmo sem tá perto. Coisa estúrdia, meio rio baldo, meio dia no fim.


(Tony Ramos em atuação definitiva de Riobaldo)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009




POR UM POR UM MOMENTO TRÁGICO


ter é nosso maior desperdício uma flor no córrego do peito
que ri uma floresta de porcos-espinhos fora de si um jardim
assim estrelado de borboletas um rio na boca e a vista mais
linda uma rima clara e outra claríssima uma casquinha do ovo
no indício um rolo que fez perder a cabeça e cair um vale
rompendo o esgoto do outro uma montanha solta na curva do
rosto uma asa quebrada de belas incertezas uma dúvida a mais
na mesa antes da cerveja

ter a alta velocidade do arremesso um defeito enredado aos
crespos um vício estranho deste tamanho um impecável pecado
novo na despesa um cravo no joanete do pé direito um jeito
por pouco oco diante do louco um olhar que às vezes revela
aos socos um amor que decidiu ficar esperando... um rock
português de além oceano um bundalêlê sambando da janela
um pulo do gato sem ser um gato ter unh! um rei na barriga
de quatro a sua espera

ter ainda assim dia após dia o nosso perdão um ato com
desacato bem na inversão do fato um verso de alparcatas diante
do seu assassinato um gesto em que a palavra na trave parece às
cegas um pedaço se repetindo do mesmo refrão um meio pela
metade da humana canção um resto de segredos e espirais nos
dedos um beijo ferindo a ausência nos lábios uma saudade do
que se perdeu antes do começo um momento em que o flerte
é o que mais pesa na mala

um torpedo que caiu do bolso no meio da sala
um cavalo em branco na folha de velhas tristezas

(imperdoável é ter preço)



DEUS LHE PAGUE


Eu mendigo
Tu mendigas
Ele mendiga
Nós mendigamos

Vós mendigais
Eles mendigam
Eu amém digo
Tu amém digas

Ele amém diga
Nós amém digamos
Vós amém digais

Eles também
Eles amém
Depois nem


CANÇAO QUE NÃO DESCANSA


Eu nem sei bem,
mas eu continuo
e falo por nós dois.
– Não esquece o casaco!
Veja os relâmpagos!
Amar vem de um destempero.
Canção que não descansa
na cachoeira.
O verde mais bonito.
Dividir o lanche
quando já é pouco.
Existir é insistir.
O amor é leão,
seu reino em torno.
A floresta desesperada
de rir nos seus braços.
Seus olhos são crepúsculos
Eu nos seus oceanos



OPERÁRIOS DO CAOS


De Picasso
um traço
uma linha
no ________________________ espaço
Ser um verso
livre de Rimbaud
ou nos descaminhos espinhos
de uma flor de Baudelaire
Antonin Art - orto e a direito
um pouco de louco
Nijinsk em nós seu véu
Na lagoa uma rã dançando cancã de hai
cai das mãos de Camille Claudel
aos pés de Rodin e se trai



MAKE UP


Temas são importantes.
Lemas, para quem quer
parecer que sabe viver.
Mas só os dilemas ver
dadeiramente transformam.

Os homens buscam lógica,
logo, e, ironicamente, ficam
indiferentes à poesia.
Mas eles vão ao banheiro
e choram enquanto cagam.
Vida... lágrimas e descarga.

No espelho todos ficam bem;

viver para quem sabe parecer.
Mas ‘ninguém viu a minha obra’.
Sós os sorrisos nos salvam!