domingo, 13 de setembro de 2020
AMBULÂNCIAS E ROSAS
- Não serei nunca o poeta que eu teria sido mesmo sendo assim comigo tão parecido ainda assim sei que não serei nunca o poeta que eu teria sido se assim comigo sou tão parecido mesmo sendo o que em nós é o que dos outros tem permanecido parece-me que só o que fica dos outros seja o que de verdade somos em definitivo ainda que sós no somente nosso assim vivo com tudo que tenho vivido parto com o esforço de já ter ido e nem bem chego com a ansiedade de viver partido rindo vindo dessas minhas estradas eu me acho nas partes das palavras desencontradas sou essa rodoviária anunciando o próximo ônibus sem parada onde as pessoas passam desconfiadas arrastando bolsas sacolas e outras crianças perdidas eu choro nos olhos delas por essas minhas idas apresento documentos e os melhores sentimentos atentos meus olhos me mantêm como se me tocassem sirenes silenciosas adormeço ambulâncias com sonhos de rosas e que ninguém ouça o nosso medo com sono pois que assim se dorme quando se é muito seu dono
segunda-feira, 20 de julho de 2020
HISTÓRIAS PROIBIDAS
Uma hora ou outra. A tinta
nos atinge. Você, pintor maldito rasgando as telas do passado, escondendo as
telas do passado, refazendo as telas do passado. E vem a hora definitiva dizendo que se perdeu
tanto tempo vivendo para trás. E depois levando sempre tanta coisa. Possuindo
tanto. Desmedidamente. Expondo troféus. Viver não tem esse tempo todo. Pra lá e
pra cá. Viver é aqui e somente. Morrer dá o tamanho do nosso desperdício. Gente
discutindo a miséria do outro, o drama do outro, o infortúnio do outro. Quem
quiser que se prenda, mas o homem é bicho solto.
sábado, 15 de fevereiro de 2020
PRIMEIRO DIA
PRIMEIRO
DIA
No
início não havia pássaros negros
sobrevoando
nossas carnes
o
sol era quando tudo virava luz
e
eu sonhava com coisas
quando
as coisas ainda
não
tinham nome algum
Hoje
exatamente às 07h40min
do
dia 13\10\2019
acordo
sem sonho nenhum
também
não me lembro
do
que sonhei na noite passada
quando
todas as coisas possíveis
nome
tinham ao menos um
Não
dói acordar
e
não ter ninguém pra chegar
se
não se tem ninguém
é
bom não ter ninguém
e
a cama nem parece grande assim
os
carros passam
e
distantes cães continuam latindo
Amanhã
o mundo espera
que
eu faça alguma coisa com alguém
alguém
que me espera
ou
simplesmente me encontrará
Hoje
nada disso existe,
porque
hoje ainda é domingo
Quero
morrer dormindo
como
um vento que se foi pela tarde
me
deixem morrer
sem
fazer nenhum alarde nem choro
falem
as palavras bonitas
de
um longo dicionário
como
se houvesse um primeiro dia
para
lembrar bem depois
fechem
os meus olhos
sem
pânico drama ou espanto
Aquele
homem era somente eu
e
eu de perto nunca fui vário
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
O FABULOSO
Ouvi a história
do senhor do vento
Que resolveu
beber a água do mar
E ainda domar o
maior sentimento
Sem assim seu
coração se entregar
Queria ele
possuidor da coisa insana
Ver tudo! As
estrelas da noite ao porvir
E ir além da
escura condição humana
Varrer o tecido
marítimo! Descobrir!
Saber onde Deus
de infinita costura
Tinha guardado o
restante do pano
Da terra em
retalhos até a sua altura
O amor! Uivava
seu imenso oceano
O vento velejava
só a sua procura
Nele o verde das
águas era seda puradomingo, 3 de dezembro de 2017
UMA NOITE COM RIMBAUD
‘A
Grande Ursa,
O meu albergue, brilhava no céu escuro.’
Rimbaud
O poeta-escultor:
- E só não dá certo
se você tem pressa.
Depois é importante
reconhecer o errado,
vale a caminhada
e não dar em nada.
História de um dia.
Uma noite apenas,
e por um momento
só, vejo a madrugada...
Mais uma, hilária,
e desta pilhéria
tenho a melhor piada.
Pensava-se eterno
e é breve esquecer.
Conflito, dilema...
Nem santo ou promessa,
eu seguirei incerto,
não espero o amor.
Viver é durante.
Se esqueço o passado,
assim do futuro,
bolso tenho do furo.
Vento frio por dentro
que queima minha pele.
Uma noite apenas
e ergue-se o poema.
Agora é tarde, Inês é morta!
HISTÓRIA DA RAINHA MORTA
‘De noite, em doces sonhos que mentiam,
de dia, em pensamentos que voavam’.
Camões
que a vida ela só conheceu plebeia:
de Castela para Portugal vinha
sem o oráculo que nos adivinha,
entre as brancas flores sem ter
ideia
sonhar solitária feito azaleia.
Ah! O Amor em peito tão juvenil!
De sorte, e ainda assim, um
triste engano.
Se maior, o reverso lado é mais
vil.
Sim, uma rainha morta no covil!
Desenredo de quem se fez tirano,
as mãos reais banhadas em sangue
humano.
Tirar Inês ao mundo determina!
O povo cochicha veredicto desejo;
- A mundana bem merece a sina!
(E os filhos?) A sentença ensina:
nos campos de batalha e além
sobejo
os ratos se incumbem do despejo.
Muitos desembainharam a mesma
espada!
A inveja sabe forjar os
impostores
que intempestivos nos roubam a
fábula.
Se houve silêncio não se ouviu
mais nada:
o sangue correu entre as brancas
flores
manchando pra sempre os brutais
atores.
‘De noite, em doces sonhos que mentiam,
de dia, em pensamentos que voavam’.
Não direi coisas que eles não
sabiam.
Morreram todos que escondidos
riam:
enquanto os assassinos a
açoitavam,
ela lembrava os versos que juntos
cantavam...
Mas, eis o príncipe, e a coroa
dela,
e um amor onde a espada não
corta.
O seio da flor, que branco lhe
deu donzela,
exala o perfume que a fez mais
bela...
Tantas muralhas e nem uma
porta:
- Agora é tarde, Inês é morta!
SONETO PARA ADÉLIA PRADO
De algum refinamento seremos todos escravos
Mesmo os mais rudes
homens cheirando às pescarias
Arrogando orgulhosos
os silêncios dos parvos
Em suas histórias de
astutos ressaltam poesias:
- O lambari
atravessou o ar feito um relâmpago!
Era noite dentro de
treva e a luz a espera
Se entre os fracos
aviltamos a voz ao escândalo
Às vezes do mato
respira o medo, nossa fera
Mesmo que a palavra
não seja mesmo de luxo
E o pelejador ainda
assim alimente o seu custo
Pra justificar o
roubo aos deuses inumeráveis
- Eu vi a mãe d’água
e jamais vou esquecer seu canto
Se eu pesco larvas,
desconverso fantasmas, meu tanto...
Entre rãs
sobressaltadas as musas são impecáveis!
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