quarta-feira, 14 de setembro de 2011

DO CÉU DA BOCA PRA FORA

DO CÉU DA BOCA


Eu levantei do céu da boca

um caminhão de mudanças

Eu e minhas andanças

(Pouco tinha ouvido falar de novos espaços)

Eu quando buscava versos

partia-os passo a passo

- as estrofes aos saltos -

das linhas em branco era o que escrevia meu braço

Eu respirei fundo um dia

e durante toda tarde tateei-me

Supondo-me fora de mim: nem giz nem lápis

Só o pequenino “e” do primeiro caderno era eterno

Eu estava enlouquecido de estrelas nunca vistas

Não havendo mais infinito

que não fosse meu

as asas tatuadas e sem direção

Eu fui perdendo a gravidade

de cima dos meus sonhos eu não caia mais

e eu já não pertencia a ninguém

minha mãe e meus irmãos estavam conformados

Eu tinha escolhido me lançar

eu que sempre tive baixa resistência a realidade

ia agora como aqueles que vão à margem

desafiando os descaminhos da noite

Eu era a cidade e o mar a um quarteirão

minha poesia não me sustentava

amontoados de palavras

pondo ferrugem nas coisas

Eu não queria mais que aquele dia nascesse

desafiei a escuridão das musas

esperei pelo silêncio com fome

de algo que jamais fosse meu

Eu de novo passo a passo

como se amanhã não existisse

Nada quisesse. Eu entendia...

E bem antes da noite cair de risos, alta

Eu que tudo tinha não me

continha de tudo que tinha:

Morria extasiado de tantas conquistas

Vive-se sempre depois é do que nos falta


PRA FORA



Pra fora

toda hora

do céu

da boca


Pra fora

a maçã

e a nossa

aurora


Pra fora

já agora

luz temporã


Pra fora

a amora

da manhã


ESPELHO MÁGICO



Eu sou o bobo da corte

sem corte eu sou o bobo

da corte sem bobo eu sou

o bobo da corte sou eu

a corte do bobo sem eu

sou a corte do bobo eu


mas o rei também sou eu.

VERSOS TOLOS



Tolos são os versos

que não são sinceros

os ventos vêm

e levam nossos castelos


se pra falar de amor

for preciso mentir

olhar nos olhos

de quem mentiu e sorrir


Eternos são os sonhos

que nós esquecemos

enquanto dormimos


o melhor de nós

é quando partimos

e falamos sem voz

TÃO POUCO



Tenho eu também evitado palavra

ou movimento. Acredite: eu

não estou me colocando dentro.

Entro. Quando penso não é água

retida. É no que vai. Solto e

anonimamente num rio vou

embrenhando em mim, despenc

ando de mim. Então tá assim

e eu nem ouço: não tenho nada

de ninguém. No que sou você

vamos quando então nós

alcançamos que há outro no outro.

Que o outro já é outro que nem

conhecemos. Terrível é quando

tão pouco nos parece tão definitivo.

O que só ri de nós. Livre de nós.

Vozes. Eu não ouço o que eu ouço.

Saber ocupa espaço. Mesmo a canção,

ainda o vento... Divagações de tanto.

Tempo tenho tido mais lento.

Essas montanhas às vezes demoram

e são apenas minutos. Não que eu

tenha pressa. Pressa tem quem espera.

E há muito não espero pelos meses.

Tenho ido. Estou. E eu nem sei

o que sou. Assino desafinada divisão.

O que eu quero é cada vez mais meu.

Mais do que paz é preciso uma certa alegria.

Ser feliz é muito pouco.

OS HOMENS SE DESPEDEM DO MAR


Os homens se despendem do mar com suas roupas coloridas. Despedida é mesmo triste, mas sabido é que viver é um trágico aprendizado da morte. Sim, trágico, pois mal aprendemos. Nossos rituais, os mais bonitos ou os mais bárbaros, apenas se despedem da vida com seu anteceder que dói. Cotidiano e humano. Nosso oceano fotografado com nossas crianças felizes. O pedaço negro do filme revela que não somos de verdade. Mentimos nossa descarada felicidade. Interrompemos alguma coisa para dizer que somos sim felizes, que a vida apesar de tudo valeu a pena. Que luz é essa em clarão que explode pra nos justificar ainda mais? A natureza alimenta nossa vaidade. A natureza se vinga. Aqui e ali o seu deserto se alonga além dessa onda em camadas transparecendo e umedecendo a areia da praia. Não sei se esse balão sobe ou se é o cordão umbilical do mundo com seu acorde. De longe e mal focado apenas uma fotografia em que parece que os homens se despedem do mar com suas roupas coloridas.


3 comentários:

Lou Albergaria disse...

Rapazzzzz....você é incrível! Sua poesia deixa a gente sem palavras e olhe que vivo pela palavra e por causa da palavra, mas sua poesia me toma todas elas, me bebe, me sorve, me suga, me molha...Eu amo sua poesia!

Beijos!!!

Lu

Paulo Alvarenga Poetano disse...

adorei o que vi aqui Guerá...singular..assim como te vejo, vou segui=lo com prazer meu querido, sempre estarei te lendo! abraços Paulo

Priscila Jerônimo disse...

Caracas...Gostei muito...