quarta-feira, 21 de setembro de 2011

FAZENDO SOL


FAZENDO SOL



Falo da água aparente – o corpo não é tanto –

A alma, não se engane, pouco muda

Você é você tão somente, não tem mais que um canto

O resto é abelha, é enxame, coisa estúrdia

Você se quiser que represente, ria de escárnio e espanto

Pense que assim comande. Não se iluda

Ninguém esconde o que sente, as palavras, a pele, estanho

E a pedra de quem ame a sua curva

Humanamente é a gente esperando algo esperanto

Nada que proclame em nós sua fúria

Se o corpo é moeda corrente, você pode dizer por enquanto

- Eu já fui! Então ande, vai na dura

A montanha de repente. Eu que já nem te amo

Te amo mesmo que me zangue, me ilhe a rusga

A raiva nasce inocente, o choro perde o pranto

Não me queira, não chame minha chuva




O OUTRO DE PERTO



Depois é tempo de outras palavras

porque assim de perto somos quase parecidos.

Não precisamos ter medo do outro.

O outro é só alguém com medo. E outros com muito.


E mais ainda nos aproximamos dos cães

latindo que somos ferozes.

Não, não quero mais metralhadoras

ainda que elas digam, agridam. Tendo dito.


Depois é tempo de não reinventar mais nada.

Finalmente podemos comemorar.

A bem da verdade estamos fartos de nós.


Aprendemos a dura lição da modernidade

Sexualizados, endiabrados, condenados...

É justa sua vaia, seu grito entre os aplausos


EU (Inconfidente)


Rio ao contrário, de noite sou água,

qual veio de dentro do canto das Iaras.

Sim! Sou pactuário. Não do diabo,

mas do deserto seco das palavras.


Mino entre montanhas, sol do meio-dia,

seja vale ou correnteza a espora da poesia.

Nas crinas que vento o mar imaginário

pensamentos são nuvens. Eu não me escudo.


Leito sobre o Saara sem mágoas. Por fim,

lágrimas são pra chorar seu veludo...

O que não é bom,nem sempre é ruim.


Em quais outras margens me teriam desnudo?

Em mim só a luz é úmida. Assim,

por este frio fio me queimo, translúcido.

ACÁCIAS IMAGINÁRIAS



Eu deveria saber mais sobre flores

que jamais reconheci pelo nome,

embora seja um dos seus cantores.


Eu deveria descortinar o longe

além de recíprocos dissabores.

Triste é outono de quem tão só se esconde.


Sem rumo o homem levanta rumores:

de onde vem, como se veste, o que come...

Quisera eu meus versos soassem tambores!


Sem hora por arrogante não me tome.

Também não me apresentei aos senhores:

fui rei, ladrão, e em tudo sou eu fome.


Ocidental de trocas e favores...

Subi a montanha e o grito não responde.

PRELÚDIO


Eu espero ser imprescindível!

Mesmo na urgência das palavras,

sílabas desarticuladas...


Eu espero estar no indizível,

nos lábios não pronunciados

que ausente em silêncio beijar.


Eu espero enquanto nada quero.

Viver é jamais chegar lá!

Ver as encostas, as gaivotas...


E ainda o mar, o mar de outro mar.

Esperar. O resto é invisível

momento do não-dito-infinito.



O REI, O MENDIGO E O LADRÃO



A viagem é longa e eu nunca estive mais

acompanhado. Não subi a montanha, não,

mas me tornei uma. Agora desço sempre

de mim mesmo. Cristalizado terror do eu.

Aprendi a estar só. Ser? Nada somos.

Dizem que em Jerusalém um dia um rei lá

podia não passar de um ladrão, e um mendigo

podia ter aos seus pés uma multidão. Então

depende de onde estamos nós. Pra onde

nós vamos tocando essa nossa estrada.

Eu por mim sentava debaixo de uma árvore

no meio do caminho. Senhor das pedras.

UM PORCARIA PIOR



Não, não fui bom. Pobre amante,

triste amigo. Em noites de poesia

gostava de ler e de ouvir. Sentir

a pulsação do outro e na minha

os ritmos pulando, descompassos.


Os amores se vão e as histórias nós

renovamos, nós compartilhamos nós.

Ah, meu amor! Então, meu amigo.

Eu quero pedir desculpas aos dois,

porque também não quero me sentir

bem. Fui um porcaria pior de nada.


Ali competindo a insensatez do outro,

a liberdade de uma idade que passa.

Nem tudo é uma questão de espírito.

Não se enganem: plástica é plástica.

E vem de dentro a nossa máscara.


A MONTANHA



Assim eu saí de mim

de dentro mim

eu vim assim de mim

eu saí de dentro de mim

assim de dentro de mim

eu saí de mim

assim de mim


e eu fui crescendo

de mim a mim

e era então fora de mim

eu vivia assim

fora de mim

era então fora

de dentro de mim


eu fui crescendo

de dentro de mim

eu fui crescendo

eu então de dentro

e fora de mim

eu explodi em sons

de dentro de mim


e eu era a montanha

desesperada de mim

crescendo na pedra

sem fim... sem mim

sem terra sem água

sem chuva de tarde

sem beijo no fim


Rolo em pedras distantes

de mim em sons explode

a montanha de mim

em pedras distantes

de dentro de mim

a montanha desesperada

de mim a mim


e quando eu crescer

quero ser paralelepípedos

pelas ruas, ainda que

irregulares e tristes

mas montanha

não quero ser

não, montanha, não


e não quero ser seu ânus

seu grande oceano beijando

sua boca na minha

era possível que amasse

a sua miragem

me esperando no deserto


e ainda assim me apavora


2 comentários:

Lou Albergaria disse...

então é melhor se paralelepípedo do que montanha?.....hmmmm.....não sei não sei.....

paralelebípedes eu não gostaria de ser.

Belíssimo seu mosaico poético! Mais uma vez arrasou!

Beijos!!!!

Analuka disse...

Tuas postagens são sempre intensas, e parece que agora, com a entrada da primavera, ficarão ainda mais vibrantes!!! Boas provocações, e bonito conjunto poético e imagético! Abraços alados!